Debate Lygia Fagundes Telles

Base: “Invenção e Memória”

O conto entre nós, brasileiros, começou a ser cultivado a partir do século XIX. Caiu no gosto do público e, desde então, a literatura brasileira tem produzido excelentes contistas.

Na verdade, foi com a Escola Realista que o conto atingiu sua maioridade e adquiriu autonomia como gênero literário. Com o Realismo, abandona sua relação  umbilical com o folclore e com os relatos orais, passa a ser dono de uma escritura bem elaborada, realmente artística, ombreando com os romances e a poesia que se produzia na época. É do final do século XIX nosso mais renomado e acabado contista: Machado de Assis. Com ele, o conto alcançou estrutura, andamento e linguagem modelares ainda hoje insuperáveis.

Depois de Machado, já no século XX, surge outro contista emblemático, mestre de muitos, Monteiro Lobato. Mais modernamente surgem outras referências no gênero das narrativas curtas como Mário de Andrade, Alcântara Machado, João Alphonsus, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ombreando com este time de primeira grandeza, nossa contista mais importante da atualidade, desde os anos Cinqüenta/Sessenta, Lygia Fagundes Telles, atinge a maturidade com “Histórias do Desencontro” e “O Jardim Selvagem”, segundo a crítica especializada.

LFT, a grande dama do conto no Brasil, é a nossa maior exploradora do microcosmo como componente criador de atmosferas. Reforça-se: criar atmosferas e forte tensão narrativa é uma das marcas mais significativas de seu estilo de contar histórias.

Em todas as antologias de contos organizadas por estudiosos bem abalizados, encontramos a presença de LFT. Em “Mestres do Conto Brasileiro”, organizada por João Alves das Neves; em “O Conto Brasileiro Contemporâneo”, organizada por Alfredo Bosi, em “Antologia do Novo Conto Brasileiro”, organizada por Esdras do Nascimento e, mais recentemente, “Os Cem Melhores Contos do Século”, organizada por Ítalo Moriconi, onde encontramos a arte exponencial de LFT.

Ítalo Moriconi escreve no prefácio de sua antologia que “O fato incontestável é que a partir dos anos 60 o conto passou por uma verdadeira explosão em nosso país, uma autêntica revolução de qualidade. A velocidade, a capacidade de nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado… fizeram do gênero o espaço literário mais adequado à tradução dos sentimentos profundos e das contradições que agitaram nossa alma basicamente urbana das últimas quatro décadas.” E, é claro, LFT faz parte desta ‘revolução de qualidade’ de  que nos fala Moriconi, já que a arte lygiana – não é à-toa que este adjetivo está incorporado à critica literária contemporânea – explode também a partir dos anos 60.

 

CITAÇÕES SOBRE LFT:

Alfredo Bosi: “Há… a relação dramática com o passado, reino da posse e da perda. O convívio da consciência com a memória tem produzido um intimismo de situações novas, algumas ousadas e desafiadoras. Recuperar a imagem do que já foi, mas que ficou para sempre, é o esforço bem logrado da prosa ardente de LFT.” “Invulgar penetração psicológica.”

José Paulo Paes: “Estilo de discreto impressionismo, que ora apóia no desenvolvimento do enredo, ora na criação de atmosferas, evidencia seu gosto pelo temas de trágica morbidez ou de malogro e frustração humanas.”

Paulo Rónai: “Outro segredo de sua arte consiste no recurso ao símbolo: objetos, gestos, palavras são sempre carregados de um segundo sentido que fortalece os acenos ao drama próximo”.

Fábio Lucas: “… explora obstinadamente o desencontro das personagens, expõe a face dramática das fraquezas humanas, veda os caminhos da redenção. E quando a intensidade da situação esgota a capacidade de resistência, o mundo transfunde-se em mistério, em produto de magia, em seara de encantamento.”

“Observe-se a sutil intromissão de pormenores nos contos: formigas, ratos, pássaros, gatos, pedaços de sonhos, vulcões, unhas, dedos, mãos, gestos… tudo querendo se manifestar, mensagens, puros apelos para serem decifrados”.

“Outro registro para quem estima a boa prosa de ficção: os diálogos. Ora tensos, ora dramáticos, ora cômicos, mas sempre focos de pertinência narrativa, condutores de ondulações sutis do pensamento”.

 

PRIMEIRA IMPRESSÃO SOBRE

“INVENÇÃO E MEMÓRIA”

É aparentemente diferente de tudo quanto Lygia escreveu até agora, com – aparentemente – poucos pontos convergentes com sua produção anterior. Pareceu-me serem textos menos compromissados com a literatura propriamente dita, no sentido tradicional de construir contos. Na verdade, menos compromissados no que tange a temas como angústia, tristezas, desencontros, morbidez, suspense, mistérios, atmosferas geradoras de clímax, sustos e impactos no leitor. Mas, em relação à linguagem, mormente os discursos das personagens – reais ou fictícias – a escritura é apuradíssima e a autora chega a criar uma sintaxe e pontuação próprias, deixando de lado a técnica padrão que escritores em sua maioria utilizam. Neste “Invenção e Memória”, Lygia tem um jeito próprio, peculiar, de encaixar a fala na boca da personagem, bem visualizada sobre a superfície branca da página, através de maiúsculas que se destacam dentro da mancha impressa. É olhar e ver as falas.

Guimarães Rosa diz que “literatura é linguagem” e, sob este prisma, “Invenção e Memória” encanta-nos. Não se pode dizer que é uma revolução, mas é um estilo, embora despretensioso, bem elaborado, onde se percebe claramente a maturidade da arte de contar de LFT.

 

OUTRAS IMPRESSÕES

Depois da Primeira Impressão, uma leitura mais acurada revela-nos outras propriedades desta obra peculiar. Em sua estrutura profunda subjaz uma leitura de uma realidade amarga onde saltam aos olhos e coração do leitor uma tristeza fina e uma solidão miúda que vão sendo expostas delicadamente através do tempo e espaço. É isso, o tempo e o espaço são o cenário para a autora temperar a realidade com a ficção. Infeliz do leitor que quiser separar nesta obra o tempo do espaço e a realidade da ficção. Será trabalho de Sísifo.

Em Que Se Chama Solidão há um inventário de lembranças de infância sobre o qual se tece a história (ou seria estória?) da morte de Leocádia e da solidão da pequena personagem narradora. Eis o inventário: chão da infância, cálculos na ponta do lápis, tacho de goiabada, piano da mãe, meu pai era um homem instável, a Inês é morta, pé machucado e amarrado com tira de pano, tintura de iodo, tive sempre uma pajem, contava histórias fantásticas, procissão de sábado, anjo com asas de crepom, Castro Alves, quem chegar por último vira sapo, nesta rua nesta rua tem um bosque…, Apiaí, mudança de carro-de-boi, fordeco velho, escola de freirinhas, quermesse em dezembro, peru embrulhado em papel manteiga, etc. Neste cenário o drama da morte de Leocádia, a pajem querida, e a solidão da criança se fundem com o mundo dos adultos.

Especial atenção desperta a metáfora ‘chão da infância’ que abre o primeiro conto. Cria-nos, aos leitores, uma perspectiva de espaço e tempo, onde se sedimentam as lembranças que propiciam todo o tecido narrativo de “Invenção e Memória”. Cada um de nós, leitores, tem um ‘chão da infância’. E é interessante notar que a infância e o sonho, bem como o resgate das memórias, são subtemas recorrentes ao longo de toda a produção lygiana. Inclusive mencionados com freqüência pela crítica especializada. Ouso dizer que são igualmente importantes na obra de todo escritor. Que grande autor, um dia, não alimentou seus textos aqui e acolá de suas lembranças e sonhos? Este é um ponto que cria entre leitor e autora uma forte identificação.

Em Suicídio na Granja, a morte/suicídio está presente, de novo, tratado com um certo humor negro, mas muita poesia quando aparece a amizade entre o galo e o ganso, só perceptível – no conto – pelo olho mágico da infância.

Em A Dança com o Anjo há, já, um corte temporal: a narradora-personagem pula das histórias de criança para as da adolescência: “que festa é essa? …e se a coisa terminar em bebedeira, desordem?” É tempo de Segunda Guerra Mundial, Simone Beauvoir e Tommy Dorsey. Tempo de bailes, namoricos e repressão. Repressão dentro e fora de casa. Repressão em todos âmbitos do relacionamento humano.

Em Se És Capaz a figura do avô e a do adolescente atam as pontas do tempo, um jeito quase machadiano de ver a vida. Há apenas aparente um clima de otimismo no Pós-Guerra expresso pelo poema “Se…”, de Kipling, tempo de esperança, tempo de reconciliação: “… se o próximo o julgasse com crueldade, ele teria diante desse próximo o melhor dos pensamentos e se lhe batessem num lado da face, imediatamente ofereceria o outro lado”. Mas o que predomina é um tempo de perda da inocência. Há também o tempo de aposentadoria e velhice: “Não poderia mais ler… pegava a lupa e lia a Bíblia”. E o tempo de insulamento no asilo, de solidão doída no final da vida, de rejeição velada: “E no dia seguinte, foi ver se tinha alguma vaga naquela clínica com uma ala especial para esclerosados…”

Cinema Gato Preto sugere uma alusão a um filme do Conde da Pensilvânia, Talvez “O Vampiro,” de Murnau, película muda, em que a trilha sonora fazia-se por meio de uma pianista, ao vivo (“dona Guiomar martelava o piano…”), pano de fundo para contar a história da separação dos pais da narradora. O cinema aparece como veículo do Bem e do Mal (“… o cinema fazia parte dos dois lados…”). Numa leitura vertical, o subtexto denuncia um sentido subliminar de sofrimento e solidão: “o cinema Gato Preto e os seus morcegos de mentira porque os morcegos de verdade eu conhecia nessa minha infância…” Logo à frente, a denúncia menos velada do vampirismo que se abanca no poder e não o abandona mais: “Vampiro é de direita ou de esquerda? alguém pode perguntar. Sem duvida, um parasita conservador, dono dos castelos eternos.” É a adolescência descobrindo o crespo da vida através da arte. O cinema fez e faz parte de nossas vidas a partir do início do século 20. Alusão também a Cine Paradiso?

Heffman é conto datado da juventude. Várias personagens reais habitam este mundo resgatado pela ficção. Estão presentes grandes personalidades, entre elas notáveis como Ruy e Alfredo Mesquita, Antônio Cândido, Dulcina de Moraes e Vicente Celestino. A incursão pelo mundo do teatro revela o preconceito contra artistas e a repressão da família. É um mundo perplexo, dividido entre Direita e Esquerda e a redenção através da arte: “Heffman… entrava assim como um facho de luz em meio daqueles jovens desorientados e perplexos, a perplexidade estava dentro e fora do palco…” A arte imitava a vida e vice-versa.

Em Dia de Dizer Não vamos encontrar o adulto inconformado e reacionário a tudo que o cerca, reagindo ao invasor de vontades. Apesar da dor, apesar do preço a ser pago, era preciso reagir. “Tive a minha juventude tão impregnada pelo som colonizador que considero um milagre me ver insubmissa nesta altura, tentando desde sempre – ai de mim! – forjar uma vontade com a resistência do ferro”. Não à situação, ao comodismo, à submissão, ao taxista, à violência urbana, à violência do trânsito, ao vendedor ambulante, à miséria humana, ao gerente de banco… Dia de dizer não ao mundo. A ponto de resgatar a vontade de novamente dizer sim.

Em O Menino e o Velho, o imponderável da relação humana, incompreensível assassinato do velho pelo garoto. Em Que Número Faz Favor, a denúncia contra a colonização, a generosidade gratuita dos jovens, a frustração da juventude nos Anos de Repressão. Rua Sabará, 400 discute a eterna questão traiu/não-traiu de Dom Casmurro. Bentinho ressurge como personagem de carne-e-osso, impermeável e neurótico aos olhos da narradora-personagem. A Chave na Porta mostra uma personagem já amadurecida pelos anos (“… já lá vão quarenta anos, menina. Quarenta anos de formatura!”) que reencontra o amigo de faculdade morto há muito tempo. Realidade ou fantasia? Mistério, sem dúvida. Em História de Passarinho a ânsia do pai e esposo em romper com os grilhões e alcançar a liberdade metaforizada no passarinho desconhecido que cresceu na gaiola: “Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais”. O pássaro foge, mas cai na boca do gato, outra metáfora deste mundo alucinante e devorador. Ao final das contas, o velho abre o portão e nunca mais olha para trás. Ficou encantado, diria Guimarães Rosa.

Em Potyra, o texto mais difícil da coletânea, percebemos o nascimento do Mundo Novo sob as garras do Velho Mundo com fortes alusões ao mito do vampiro, que se alimenta do sangue e do corpo do outro para sobreviver. É muito forte a oposição Noite (subentendida na figura exótica da personagem que elimina resíduo orgânico pela pele e exala um cheiro incomum) e Sol, que podem muito bem ser a metáfora do europeu colonizando o homem dos trópicos. Muito forte também a presença do cristianismo como arma de submissão e aculturação do homem primitivo. “Por entre os colares, um fio mais longo com a cruz de estanho, era catequizada, os religiosos que por ali tinham passado plantaram a Cruz de Cristo e fizeram as advertências, as vergonhas deviam ficar escondidas”.

Por fim, em Nada de Novo na Frente Ocidental, alusão ao romance de Erik Marie Remarque, fecha-se um ciclo (“… parece que a guerra está mesmo no fim…”) e a morte do pai da personagem narradora interrompe a linha horizontal do tempo iniciado no chão da infância.

 

Encerro estes comentários com as palavras de José J. Veiga, muito apropriadas a propósito do que está por baixo destas memórias reinventadas pelo gênio da autora: “… o escritor precisa ver o que está na superfície e o que está por baixo, o que está em volta e mais, o que está lá dentro, invisível aos distraídos. Por esta visão profunda, a abrangente Lygia é a escritora que é”.

 

Ribeirão Preto, 06 de outubro de 01 – Auditório do SESC.